11 de jul de 2009

Michael Jackson

Vou morrer um dia e até lá jamais acreditarei na campanha difamatória que levantaram contra ele, nunca acreditei que ele fosse pedófilo, nunca, não é pela imensa admiração que lhe dedico, mas por lógica de comportamento, porque eu mesma, sempre falei assim de mim:

- "Se num lugar onde estiverem muitas pessoas, em festas, churrascos, entrega de prêmios, quermesses, enterros, balizados, queijos e vinhos, pode me procurar onde estiverem as crianças, pois elas sempre foram as que conversavam comigo, falavam comigo, abraçavam a mim, eu, Marilia".

A criança não sabe quem é você, mas paradoxalmente, é ela a única que realmente sabe de seu coração, enfim, só ela sabe quem realmente vc é.

Os adultos falam com o conceito que têm de você, pior ainda se vc é uma pessoa famosa.

Não só eu, mas ninguém nesse mundo poderá ser comparado ao Michael Jackson, mas na escala proporcional, tive meus momentos de muito sucesso em meu país e a partir disso, vim a conhecer a mais amarga solidão, a solidão de estar a cada dia mais sozinha quanto maior for o destaque que o trabalho proporcione.

Faz tempo que deixei de estar entre as crianças por ter percebido muito cedo que poderia ser uma cilada. O pior é perceber que estava certa!!!!!

Já que não sou de muito papo com adulto, agora sem as crianças, me restaram os gatos, cachorros, passarinhos, paredes e travesseiro. Você não pode imaginar quantas vezes fiquei depois de um espetáculo de sucesso, sozinha no teatro a ruminar o que era aquele momento de profundo abandono depois que todos iam embora pras suas casas.

Acho engraçado quando muitos ainda hoje dizem se preocupados com o tanto que fico sozinha no sítio, que isso é demais pra uma mulher ainda jovem, blá blá blá.

Sou sozinha desde pequenininha, eu sempre me isolei, sempre quis ficar com minha imaginação e meus sonhos. Nunca fui traida por eles, nunca esperei nada deles, sempre achei que eles é que esperavam por mim e de mim. Essa sempre foi a minha grande e suficiente companhia.

Crianças se encantam com artistas porque eles são crianças brincando de representar alguma coisa além de si próprios, apenas não têm mais a idade cronológica da criança de fato.

Quando vim morar na roça, era difícil dar conta de tantas crianças que queriam trabalhar para mim e as mães vinham ao meu portão para pedir que eu aceitasse. Meninos e meninas de oito, nove, doze, quinze, dez anos de idade.

Houve tempo em que abriguei mais de cinco de uma vez e a minha alegria era dar lhes remédios, comida, roupinhas e muita conversa na hora da mesa, além do dinheiro que levavam para dar em casa.

Todos aprenderam muito sobre comportamento, educação, gentileza, sobre o campo e suas aptidões e utilidades. Esse foi um tempo puro e lindo que vivi.

Hoje posso ver em seus olhos de adultos (todos que passaram por minha casa, hoje já têm seus próprios filhos) que existe um olhar de amor quando olham para mim, alguns quando falam daqueles tempos, marejam os olhos e sempre dizem que viveram em minha casa os melhores dias de suas vidas, até porque também, depois que estavam comigo, passei a proibir aos pais que batessem neles, pois isso eles sabiam dar, muito cacete nas crianças.

Foi muito cedo que percebi que o melhor era não ter mais essas crianças ou outras comigo, pois já começavam a surgir os primeiros rumores dessa catástrofe humana e social que é a pedofilia e o pior poderia vir a acontecer.

Adeus ao riso aberto, alegre, expontâneo e puro.

Adeus aos olhinhos lindos e brilhantes.

Adeus à certeza de que aqueles que vinham "trabalhar" me dando tanto trabalho, não mais trariam os "anjinhos do céu" que acompanham e protegem todas as crianças; esses nunca mais viriam iluminar os meus dias, acarinhar o meu coração, fazer uma adorável companhia à minha verdadeira pessoa, posto que crianças, ao contário dos adultos, não gostam de "personas" a não ser na hora de brincar.

Os adultos são incansáveis em acreditar, admirar, invejar , imitar, as "personas" e de serem cumplices das outras criações inevitáveis quando se vive do blefe.

Uma vez eu escrevi na contra capa de um disco meu:

-"A música é a voz de Deus, abençoado seja o músico, mensageiro Dele".

Só as crianças ouvem a voz de Deus em sua plenitude.

Os adultos "ouvem falar" ...

É o que sempre pensei sobre Michael Jackson, até porque é típico de adultos julgarem os outros por si próprios.

Se eu sou assim, se penso e me comporto desse modo, porque ele não?

Somos artistas, porque não temos o direito de sermos puros de coração?

Porque obrigatoriamente temos que ser torpes, abjetos, medíocres, como alguns que de artistas têm apenas o título?

No novo milênio não podemos esquecer nunca mais que por trás das lindas e puras crianças, podem haver duas criaturas que uniram óvulo e espermatozóide para mostrarem o que são, esses sim, os verdadeiros pedófilos, cafetões e cafetinas de seus filhos.

Depois daquele espetáculo empresarial que foi o velório de MJackson, não acho que ele foi embora cedo.

Já foi tarde.

Uma vida inteira ( inclusive no velório) sendo usurpado, só um grande coração pode aguentar cinquenta anos...

Marilia Barbosa, Julho de 2009